domingo, 2 de setembro de 2012

Dia

Mergulhada nos versos do poeta
na sua prosa melancólica
ora dramática, ora nostálgica
as poucas horas da madrugada escorreram

Os pingos de cor do amanhecer
perfuraram os buracos da janela
O pássaro cantou
O sino da igreja tocou

As pálpebras deitaram preguiçosamente
não era sono,
mas, contemplação.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Os cabelos lisos que eu nunca tive


Lembro-me de um episódio de quando a minha mãe era viva e eu ainda recebia conselhos a beira da cama. Eu tinha por volta dos 10 anos de idade, já era noite naquele dia. Foi, talvez, o choro mais memorável da minha vida.

Pode parecer absurdo, mas eu chorava porque tinha cabelos cacheados. Chorava porque os odiava. Chorava porque não queria tê-los.  E não era um choro qualquer. Eram lágrimas torrenciais. Lágrimas que pesavam, molhavam feito garoa e inundavam como tempestade. Elas saltavam dos meus pequenos olhos castanhos, ardentes, para percorrerem a maçã e a bochecha e então, libertas, pingarem num canto qualquer da roupa - se antes disso os finos dedos da minha mãe não as enxugasse e as roubasse do meu rosto quente.

Era um choro de bebê quando a mãe esconde a chupeta, de adolescente quando está apaixonado, de adulto quando está arrependido e de velho quando não quer mais ser velho.

Minha mãe não sabia muito o que dizer. Ah! Seus cabelos eram lisos! Os mais lisos que eu conhecia. Eram lisos e lindos! De um liso que brilhava, mas brilhava tanto, que me cegava de amor. Ela sim, tinha os cabelos que eu queria ter. Eu queria a lisura de minha mãe. Mas, incrivelmente, ao invés de culpá-la por isso, eu a endeusava ainda mais, a amava ainda mais. Ela era o que eu queria ser e não era.

Minha atividade mais prazerosa era pentear os cabelos negros, lisos e lindos da dona Marta. O pente corria, descia e subia, sem nenhum grunhido - os meus não. Os acariciava como se fossem meus - só meus - tão mais meus do que dela. 

Eu dizia:

- Mãe, vamos trocar de cabelo? Dou-te os meus e fico com os seus.

Ela, com voz de mulher grande e delicada, respondia:

- Claro que eu trocaria. Seus cabelos são lindos. Por que não fica você com eles?

Não. Eu não queria ficar com eles. O fato é que eu sentia raiva, não exatamente das minhas madeixas onduladas, mas de todos os outros cabelos lisos de meninas que não eram eu. Elas desfilavam com aqueles rabões de cavalo, esvoaçantes. Não. Não era inveja - ou até seria...  Isso me corroía. Eu me sentia feia.

As mãos da minha mãe, as únicas e inesquecíveis mãos, andavam por mim e me consolavam naquela noite de choro. Aquelas mesmas mãos que me faziam dormir, apalpando os cabelos que eu odiava. Mãos que me faziam ser criança - para sempre.

Ela me tocava dizendo que eu era especial. Dos seus lábios eu ouvia que se um pequenino detalhe meu fosse arrancado ela iria reclamar com Deus. A menina dos cabelos feios fora o melhor presente dela. A menina dos cabelos feios não devia chorar porque era perfeita, dizia.

Não sei como aconteceu. No dia seguinte tudo estava esquecido.  Os anos se passaram e cá estou eu com meus cabelos enrolados. Mas, se hoje eu fosse chorar por algo, choraria pelos cabelos lisos que tive, mas que estavam colados em outra cabeça. 

Choraria pelos cabelos de minha mãe. 
Choraria por cada longo e fino fio deles. 
Choraria porque, agora, eles não existem mais.



sábado, 21 de julho de 2012

O look


No trem, hoje, me deparo com uma figura um tanto que inusitada. Um senhor, que aparentava seus lá 70 anos, mas que transmitia uma juventude que, talvez, nem eu nunca tive. Com um boné vermelho estilo 'New Era' da Oakley, colocado pouco acima das arelhas, deixando aparecer as grandes sobrancelhas brancas, estava ele encostado em umas das portas, no melhor trejeito hip-hop de ser. 


Usava uma camiseta listrada, ora azul claro, ora vinho, de gola, com os dois botões abotoados. A segunda camada trazia uma blusa de manga comprida da Nike, Adidas, ou algo do tipo. Era branca de listras pretas, que percorriam os braços. As mãos estavam nos bolsos das calças. E as calças eram largas, com uma estampa de um desenho colorido à la 'vida loka'. Havia também um molho de chaves pendurado, do lado esquerdo. Ah, e o tênis, claro! Uma chuteira supimpa. 

Num dado momento o telefone toca. O velho retira dos bolsos um retângulo preto dos mais modernos. De Tela Touch, com TV Digital, Wi-Fi, Bluetooth, 4 Chips e com tudo o mais! E ainda, tinha uns adesivos do Corinthians, pra completar o visual.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Amigos


Hoje é 20 de julho e dizem por aí que é dia do amigo. Dizem também que foi um argentino quem criou esta data devido à chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, com o argumento de que este é “um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis”. Verdade ou não, é uma data que nos faz pensar na distância dos próximos e na proximidade dos distantes, dos amigos que pisaram e marcaram nossas vidas, tal como o astronauta que fixou sua pegada na lua.

De acordo com o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare, nossos círculos de amigos são formados por pessoas das quais elegemos a companhia. “Bons amigos são a família que nos permitiram escolher”, afirmou.  Mas, nem sempre podemos escolher os amigos. Há pessoas que surgem em nossas vidas de maneiras tão peculiares e, de súbito, tornam-se especiais. Mesmo que não tenhamos nada em comum, a diversidade deixa a amizade mais completa, mais divertida, mais gostosa. As contradições só se contradizem porque o que é contradito conversa entre si. Quem disse que temos que ter os mesmos gostos ou costumes que os nossos amigos?

Aliás, quem é que não tem aquele amigo chato, mala? Sobre isso, o poeta e jornalista brasileiro Mário Quintana diz que “há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos”. Porque os chatos são amáveis.

Há quem diga que amigos verdadeiros são joias raras, difíceis de encontrar, são tesouros de valor inestimável. “Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo” disse Voltaire, escritor e filósofo francês. Isso é incrível, pois por diversas vezes são em momentos singelos que se constroem laços intensos, significativas de amizade, os quais nos remetem às lembranças mais profundas e expressivas, mesmo que pontuais.  “Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz”, completou Machado de Assis, ilustre autor brasileiro. Porque o puro e simples também é raro.

Para o filósofo Immanuel Kant, a amizade é efêmera, instável. “A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor”, apontou. Amigos têm crises, haverá brigas. É natural. Porém, amigo também perdoa. “Pode ser que um dia deixemos de nos falar... Mas, enquanto houver amizade, faremos as pazes de novo”, sobrepôs o físico Albert Einstein.

A amizade é um meio de nos isolarmos das tristezas e cultivarmos algumas alegrias, é um consolo, quase uma necessidade. “A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas”, redarguiu Carlos Drummond de Andrade, cronista e poeta. Talvez seja mesmo um isolamento, mas uma espécie de isolamento conjunto. Há pessoas que fazem dos livros, da natureza, os seus melhores amigos. A solidão nunca é, de fato, sozinha.

“A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”, narrou Platão, filósofo e matemático grego. É bem aquela coisa de ser responsável por aquilo que cativas e tal. É depender da felicidade do outro, pra projetar a própria. Assim como cantou Legião Urbana, na música “Comédia Romântica”: “Eu não preciso de modelos, não preciso de heróis, eu tenho meus amigos.”

Agora, amigo que é amigo, compartilha não só os instantes de alegria, mas divide as angústias, os erros, os medos... Amigo que é amigo reconhece a alma do outro.

“Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso. E fui”, finalizou a escritora e jornalista brasileira, Clarice Lispector.








Dedico este texto aos meus queridos amigos, àqueles que de alguma forma contribuem para a minha felicidade e dão à minha vida cinzenta um toque a mais de cor. Obrigada. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Diferente


Saio eu pra tomar o trem de manhã - atrasada - em direção ao metrô República. Tudo isso, depois de trocentas baldeações e, claro, se tudo ocorrer bem e a composição não parar no meio do caminho alegando aguardar movimentação do trem a frente. Em Guaianases, desço. Daí, fui direto a outra plataforma, e fiquei a espreita da chegada do trem. 


Uma senhora cutuca o meu braço e pergunta se é ali onde se espera para ir até a Luz. Respondo que sim. Simpática como só ela, começou a tagarelar dizendo que a estação estava muito melhor do que no tempo em que vivia lá. Há 10 anos. Aproveitei a ânsia dela em querer papear e perguntei onde morava. Espírito Santo. Lá não tem trem, as pessoas só andam de ônibus. Ao lado dela, um senhor, seu esposo. Caladão. Mas, os olhos brilhavam. Eu, já angustiada para que o trem chegasse logo; ele, vislumbrado com as enormes pilastras e arquitetura da estação. Ela então disse: "É a primeira vez que ele anda de trem." 


Quando o trem chegou, notava-se o desespero dele e a vontade dela em liderar. Arrastado pelo braço, aquele senhor, naquele momento, fazia algo pela primeira vez em sua vida. Fui para o cantinho, perto da porta, eles me acompanharam. Conversei com ela sobre algumas coisas. Ele divagava. A infinidade de prédios passava através do vidro riscado do trem, ele não piscava. Até que soltou: “Aqui tudo é diferente.” 


Também comecei a prestar atenção nos prédios, e a pensar em um lugar onde eles não existissem. E, realmente, eles eram diferentes, partindo desse ponto. Diferente porque eu não os via, e vendo, me surpreendia. E então, aqueles dois idosos, com toda a ingenuidade, me ensinaram um exercício pra vida: olhar como se nunca teve; amar como se tivesse visto pela primeira vez. 

Pulo no Brás e me despeço. Diferente. 


Tamiris Gomes


terça-feira, 26 de junho de 2012

Viagem

Peguei o ônibus do absurdo e voltei ao passado. 
Disseram-me que ele era mais bonito, que tinha mais flores no bosque. 
Lá, a primavera era mais florida, o inverno era menos frio, o céu mais azul, a grama mais verde.  Disseram-me que eu sorria com mais frequência, que meus olhos brilhavam furtivamente, meu toque era mais macio, meu coração palpitava acelerado, minha alma era mais leve, minha alegria mais pesada. 


Desci no ponto da indiferença, e vi você passar pela rua da sensibilidade, esquina com a paciência. Eu percorri a dúvida e te encontrei caminhando pela tolerância. 
Mas, em passos rápidos e precisos você virou na lembrança.
Eu te perdi de vista, segui em frente pela esperança. 
Passei pela praça da compaixão, cruzei a solidão, atravessei a retidão, passei pelo farol e te vi me olhar da viela do perdão. 


Seus olhos desviaram, seus braços amoleceram, seu corpo declinava devagar, segundo a segundo, seu pescoço fazia a curva, os membros iam junto, vi o seu ombro passar por mim, depois vi as costas, depois não vi nada. Você sumiu na multidão.


Deparei-me que estava na alameda da incerteza, fui até a tristeza, e andei, a passos largos e efusivos, sem direção. Percebi que cheguei na saudade, me perdi, e não sabia mais voltar. 


Tamiris Gomes

sábado, 21 de abril de 2012

Nomes


Muito provavelmente você nunca ouviu falar na dona Ceiça. Ela tem por volta dos 50 anos, morena, baiana, mora na zona leste de São Paulo e vende trufas deliciosas em frente uma universidade, também localizada nessa região. Dona Ceiça tinha uma filha que morreu antes de atingir a adolescência. Mas o passado de lembranças amargas não tirou o seu belo sorriso. A vida a apunhalou, porém, não lhe roubou a ternura. 

E também o seu José, que vende cachorro quente e mais um monte de guloseimas num carrinho de lanches no centro de uma cidade, na Grande São Paulo. Seu José trabalha mais de 12 horas por dia e faz um sanduíche que você come em menos de 20 minutos e paga uns poucos trocados. Há mais de 30 anos, por falta de opção, seu José atua ali. É quase uma vida. 

Lúcia, Gertrudes, Fábia, Manoel, Laerte, Jorge, João, Felipe, Romualdo, Karina, Joana, Helena, Ronaldo, Celina, Cecília, Jonas, Gleice, Mirtes, Josias, Wendel... 

Puxa, você também não deve conhecer a dona Josefa! Viúva, mãe de três filhos crescidos, casados, preocupados com o trabalho e as finanças... Dona Josefa caminha todos os dias de manhã, faz hidroginástica e claro, tricota à beça com as comadres durante os exercícios de aeróbica com o professor japonês, o Carlos.  Ela tem mais disposição que muito jovenzinho por aí. 

Você sabe do Alfredo? Alfredo é um morador de rua. Tem barba branca, usa uma jaqueta abotoada, uma calça moleton e um chinelo havaianas branco, de fivela azul claro. Alfredo domina o inglês, adora ler e é engajado em causas sociais - aliás, ainda lhe devo um café. Conheci Alfredo durante os movimentos do “Acampa Sampa”, no começo deste ano. Nessa época, sua "casa" era a Praça do Ciclista, na Paulista.

Maria, Antônio, Fátima, Armando, Ana, Paulo, Márcia, Carla, Patrícia, Bruna, Fernando, Anderson, Cleiton, Cláudio, Pedro, Almiro, Valdir...

Tenho certeza que jamais ouvir falar na dona Rita. Ela vivia sozinha numa casa de dois cômodos em um bairro de uma cidade da Grande São Paulo. Dona Rita nunca foi ao médico, ela fazia seus próprios remédios. Não tinha televisão, só um rádio de pilha dos ano 90. Ela andava com um véu branco, que escondia os seus cabelos prateados. Quando viajou pela primeira vez de avião rumo a Pernambuco, terra de sua família, morreu assim que chegou lá. 

Ou Geraldo, usuário de crack. Geraldo já foi empresário, talvez rico. Gastava uma fortuna com drogas. Vive nas ruas de São Paulo, sob o olhar do preconceito. Tem vergonha de voltar para sua família, mas tem família. Tem vergonha de si mesmo. Tem vergonha da vergonha que sentem dele. Geraldo é vítima, e não vilão.

Ivan, Carlos, Santos, Sidney, Charlene, Marlene, Cássia, Roberta, Rosana, Palmira, Vagner, Sandra, Marta, Ricardo, Marcos, Genilson, Kleber...

... eu e você.